quinta-feira, 30 de junho de 2011

Finitude

-Bom dia. Por favor, uma rosquinha.
-A senhora não dá mais aula ali na escolinha não?
-Não.Saí de lá já há um tempinho.Seu filho foi meu aluno?
-Não, foi o meu irmão. O Felipe.
-Felipe?
Tento me lembrar. Deve ser engano,nunca tive aluno algum com esse nome.
-Ele não foi seu aluno, era da turma especial.
-Ah,sim! O Felipe! Como ele está? Ainda estuda lá?
-Não. Ele foi pra outra escola, quem está lá é o meu filho,agora. O Felipe estudou com a Edmara, mas ela morreu,aí ele passou para a...
-A Edmara morreu?

Assim, numa conversa corriqueira com a balconista da padaria, descubro que uma colega querida, com quem trabalhei por dois ou três anos,morreu.
Lembrei de uma das vezes em que a encontrei tomando uma cervejinha com a filha, e combinamos marcar para bebericar e colocar a conversa em dia. Lembrei também do auto-retrato feito talentosamente por ela em uma das nossas reuniões pedagógicas. Com divertimento,lembrei-me do dia em que perguntei a ela se conhecia uma escola chamada Senegal, e ela saiu cantando Sene Sene Sene Sene Senegal. Lembrei dela fazendo bolinhas de sabão para alegrar seus alunos autistas.Lembrei do dia em que cheguei àquela escola e tirei sua vaga,mas felizmente na semana seguinte surgiu outra para ela, e nos demos bem como se isso nunca tivesse acontecido(eram as regras do jogo,afinal).Lembrei do seu violão alegre, da música que ela compôs no Natal e dela me chamando de compositora porque consegui juntar duas letras de música e fazer uma,e encaixar na melodia, e a cantamos na Páscoa.E dos papinhos no Manuel e Juaquim após um dia de trabalho.Da filha dela,estudante de moda.E que ela teria sido a primeira professora do meu sobrinho,se a turma não tivesse fechado por baixo quantitativo.
Lembrei de tantas coisas mais,tantos momentos divertidos,trabalhosos,enfim,tantos momentos em que pude aprender com essa colega.
E com tristeza percebi que nunca mais sentaríamos à mesma mesa. E que nunca colocaríamos as fofocas em dia.Tudo porque a gente corre tanto que nunca tem tempo para aquele telefonema, para aquela cervejinha,para um simples bate-papo.
Maldita mania carioca do "vamos marcar" que nunca sai.
Nesse mundo onde um milésimo de segundo no sinal vira xingamento,cinco minutos de atraso viram motivo de briga,onde a melhor rede social é a que estampa tudo numa folha só porque virar página é perder tempo,tudo passa rápido. O mundo passa rápido,a vida passa rápido,tudo passa rápido. E as pessoas passam rápido,porque a gente não consegue fazer com que fiquem mais um segundo,que conversem mais cinco minutos,que tomem mais uma cerveja.
Aquela cervejinha que nunca mais será tomada. Porque não deu tempo.Tempo,tempo,tempo...
O ser humano passa tão rápido...

Um comentário:

  1. É. Concordo com você. Não podemos nem parar pra pensar por que se não agirmos, arrependemo-nos futuramente. Tento viver a minha vida na exatidão, no Caminho do Meio, sem notar o quanto isso pode ser arriscado. Tenho como experiência própria algo parecido, só que foi com meu primo: havia acabado de me despedir dele e enquanto chegava em minha casa, ele sofreu um acidente de moto e faleceu. Soube disso na emergência, enquanto estava a espera de familiares para dar a noticia de que meu avô, tão querido, também havia falecido, no mesmo dia, com intervalo de uma hora entre um e outro. Duas perdas no mesmo dia, duas vidas passaram por mim - meu avô com 74 anos, meu primo com 19 - e o que pude fazer por elas? O que eles fizeram por mim que eu tenha aceitado e reconhecido?
    Viver a atemporalidade me protege e ao mesmo tempo me priva de grandes feitos. Lamento por sua amiga, não posso substitui-la. Mas posso ser seu amigo tanto quanto ela foi e tentar fazer por você o que tenho certeza que ela gostaria que fizesse: você muito feliz.

    Serenata da Viagem da Morte:

    "As flores se abrem e depois se fecham. O brilho das estrelas mais cedo ou mais tarde acaba. Também a Terra, o sol, a Via Láctea... e até para este grande universo que está crescendo, mais cedo ou mais tarde, o fim chegará. Comparada à estas coisas a vida humana é insignificante: Naquele curto instante o homem nasce, cresce, ri, chora, ama alguém, odeia alguém, sente alegria e tristeza. E no fim é coberto por um sono eterno chamado morte..."

    Te amo, Jane Carolli.

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